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05 fevereiro 2007

Diários, maio de 1148

As corujas me chamam, por detrás dessas paredes desgastadas. Posso me mover, mas só um pouco. Posso me arrastar por sobre a poeira até a boca da cabana, e talvez até mais além. Mas não posso correr. Estou fraco e cansado demais para fazê-lo.

Numa taverna de beira de estrada, eu pensei em passar uma noite agradável com uma bebida e uma mulher barata. Fui bem recebido quando entrei, com a mão na espada como se preferisse lutar a beber. Um grupo de desconhecidos, não muito distantes do fogo, pediram que me juntasse a eles, e riram comigo, enquanto enchiam minha caneca. Eu saí com eles alegremente, segurando a mão gélida de uma de suas mulheres.

Eles me jogaram contra a parede do beco. Tomaram-me a espada, quebrando-a em dez pedaços. Eles riram quando meus músculos anestesiados pelo álcool me jogaram desastradamente sobre eles, e então arrancaram minha carne, expondo minhas veias. Eu tentei gritar. Eu deveria ter morrido, mas enquanto os demônios se embrenhavam novamente nas sombras, as mãos de um deles me levantavam. Eu vi a misericórdia na face de um monstro, e Deus me livre, eu me alegro com isso.

Ela me escondeu numa cabana a milhas de distância da cidade. Estou fraco demais para partir – meu desamparo se reflete em seus olhos quando ela vem me ver. Ela me toca como alguém faria com uma criança tola, me diz coisas sombrias sobre mim. Por vezes ela me traz uma lebre, ou algumas perdizes. O bastante para me manter vivo, apesar de não sentir fome. Mas ó Deus, a minha sede, a minha sede...

Meu sangue escorre em minhas lágrimas, pingando sobre a poeira.


02 fevereiro 2007

Diários, abril de 1148

No ano de Nosso Senhor de 1148, armei-me de espada e escudo para marchar até Edessa. Era iletrado e ignorante, e acreditava entender tudo sob o Céu de Deus, sabendo todos os segredos terrenos e mundanos. Eu era jovem.

Muito antes de nosso exército de maltrapilhos pôr os pés nos desertos do Oriente, fizemos guerra entre nós mesmos. Os exércitos da Segunda Cruzada nos atacaram e os muçulmanos nos derrotaram antes que tivéssemos chegado. Tive sorte em sobreviver. Os corvos encheram os céus.

Percorri o longo caminho de volta, com uma espada que havia provado do sangue apenas uma vez: o sangue de um homem de 15 anos, que tinha corrido para mim com uma lança. Eu estava cansado, mas ainda tinha forças para apanhar ou roubar comida em meu retorno. Carreguei minha espada como uma cicatriz, e poucos na estrada me desafiaram. Minha fé se enfraquecera e eu envelhecera. Ainda assim, parecia que o julgamento da minha vida havia passado. Eu tinha matado. Poderia fazê-lo novamente, e assim passei a temer a passagem dos dias um pouco menos.

Como poderia saber o que Deus havia reservado para mim?

13 dezembro 2006

Idílio dos Reis

Les plus désespérés sont tes chants les plus beaux,
Et j’en sais d’immortels qui sont de purs sanglots.*
- Alfred de Musset


Eles marcharam sobre a terra com passos de trovão, cobraram uma majestade há muito perdida e espalharam um terror que raros profetas predisseram. Das trevas e da mágica, houve aqueles que se levantaram para combater os gigantes; sobre um mundo claro por tantos sóis, foram muitos os que tombaram e perderam, muitos os que blasfemaram e amaldiçoaram. O ribombar de seus passos fez bater o coração estático dos Adormecidos, mas nos confins escuros de seus claustros, nenhum deles despertou. Os Céus não se intrometeram e o Inferno sorriu para cinzas e sangue.

Destruir a Wyrm? Erradicar completamente a face de uma das Irmãs? Répteis tolos. Não há equilíbrio que permaneça depois de lesado. Uma guerra sem fundamento, um ideal sem honra ou propósito. Milênios de frágil estabilidade entre os mundos, amaldiçoados por sua falta de sutileza. Matilhas inteiras destruídas, tantas outras, como a nossa, desoladas; o sangue dos Grandes Lobos estará perdido por muitas eras, e nossos inimigos crescerão até lá. O Gamo Branco não brama mais em nosso bosque...

Hoje, são poucos os que confiam, poucos os que esqueceram e menores ainda os que se lembram. Os gigantes têm a benção de Gaia e Hélios e deles receberam a memória, para serem sábios. Mas depois de tanto silêncio, de tantas eras de sono, o orgulho cegou os Reis. O golpe de suas garras não carrega mais justiça que pata macia de um de nossos filhotes. Que seus descendentes escassos – pois eles existem – sejam malditos sobre a terra.


Sarah, Olhos da Tempestade de Gelo
Theurge Fianna

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* Teus cantos mais desesperados são os mais belos / E entre eles reconheço alguns imortais que são puros soluços.